domingo, junho 25, 2017

Em Castanheira de Pera


Maçãs de Dona Maria - Alvaiázere - Portugal 


Ontem, de carro carregado, amanhecemos na estrada a caminho de Pedrógão e Castanheira de Pera.

Saí em jejum e por volta das 7 deu-me a fome. Combinámos que parávamos para comer quando lá chegássemos.

A viagem fez-se bem, até que entrámos no IC8. Entrar no IC8 é uma dor de alma. Interroguei-me se não seria aquilo o fim do mundo. Tudo negro. Tudo queimado. Uma dor só...
Mais à frente entramos num túnel e a saída desse túnel é uma visão tenebrosa.
Saímos do IC8 em direcção à 236. Os socalcos da estrada. As marcas das travagens e derrapagens dos pneus. O alcatrão reposto aos bocados. E sabemos que naqueles bocados de alcatrão, sobre os quais estamos agora a passar por cima, aconteceu o pior. O horror. O inimaginável. Fecho os olhos e não quero pensar mas não consigo.

As aldeias e os rostos são de nos cortar o coração. Perdi a fala por inúmeros momentos. A angústia mal me permitia respirar quanto mais emitir algum som. Tirei uma foto. Uma. A que se encontra nesta publicação, à saída do túnel. Não tive coragem de registar aquilo. Tenho tudo gravado na memória. Os rostos, o que um dia foram paragens de autocarros, as carcaças dos carros, os esqueletos das árvores, milhares deles, uns que tombarem e outros que se mantêm erguidos, casas ardidas, o manto de cinza que cobria solos, caminhos e estradas, o alcatrão reposto aos bocados, as marcas dos pneus na estrada da morte... é um murro no estômago, na verdadeira acepção da palavra.
Ontem não adormeci, desmaiei no sofá, vestida, exausta e só acordei hoje. Ainda de rastos.

PS: Não consegui comer.

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